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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

A reinvenção do mundo em mim - Vergílio Ferreira

"Tem-se o poder absoluto de se ser, sem obrigações. As obrigações obrigam porque há muita gente e nós estamos no meio dela. Dentro de nós não há mais ninguém. Só se deixamos a porta aberta e entram sem darmos conta. Dentro não há mais ninguém e então é que sim. Ser-se obrigado a ser-se - Solitária praia sem justificação. Sol nítido outra vez, a nuvem passou. Passa ao longe sobre as águas um voo tremulo de gaivota - ou é uma vela? um voo sacudido de borboleta. Pequena mancha branca, estremece ou estremeceram nela os meus olhos. Estremeço todo eu, quando me descubro, tão forte da reinvenção do mundo em mim, tão frágil da oposição do mundo a mim." Vergílio Ferreira in Nítido Nulo

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Matéria bruta - Vergílio Ferreira

"nao compreendia a vida sem um dominio pessoal. Porque estar vivo era decifrar o mundo com olhos próprios, descobrir, em tudo o que o rodeasse, a presença do próprio destino. E o seu destino, bons deuses, era poder, rachar." - Vergílio Ferreira em Mudança

domingo, 15 de novembro de 2009

Buscar o concerto - Vergílio Ferreira


"estou onde? A princípio estávamos de acordo, porque a verdade é simples e eu tinha-a. Tão simples, que todos se perguntavam 'como foi possível ignorá-la?' Mas o que é simples é que se não vê. O que está diante dos olhos é que se não vê. É preciso passar por todo o labirinto do erro, é preciso sofrer tudo o que se sofreu pelo que nunca existiu para se saber. A história do homem é a história dos seus fantasmas. As pessoas não pensam, eu penso. Através dos séculos as pessoas deram urros de gozo, de ódio, esfolaram-se mútuamente, queimaram a vida - porquê? Houve os que viveram em cima duma coluna, os que passaram a vida numa dieta de raiz e gafanhoto, os que morreram por um homem que também morreu, os que morreram por uma idéia, e os que morreram por outra idéia que veio logo a seguir e só durou equanto se estava distraído a ver que a anterior afinal já não era idéia nenhuma, os que lutaram a vida inteira para tirar o chicote das mãos de um tipo e metê-lo nas mãos de outro tipo que dava mais gozo quando chicoteava, os que se puseram à roda de uma palavra e se bateram como leões contra os que estavam à roda de outra palavra que queria dizer o mesmo, os que se mataram por uma questão de águas, os que se mataram por uma sardinha, os que levaram a vida inteira à espera de ter razão e quando era a altura de a terem, já não servia, os que jogaram tudo no futuro que lhes fez manguitos e os achou tão patuscos, os que foram idiotas, os cretinos, os petulantes - ó farrapada humana, velha ferraria corroída de ferrugem, lixeira de uma obstinada estupidez. Daqui da minha solidão, frente ao mar, daqui vos cago em cima. E vos admiro com uma veemência humedecida."

(Vergílio Ferreira in Nítido Nulo, p.231-232, 1969)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Passo em falso - Vergílio Ferreira


“...Se tu soubesses como é difícil. Ter a verdade inteira nas mãos e ela não ser. Saber que é a verdade da vida e a vida dizer não. Como a mulher que nos deseja e nos recusa, nunca soube porquê – para nos irritar? Para se valorizar ou adiar o prazer. Pago ao graxa, atiro a moeda pelo ar para entrar no seu jogo, ele apara-a, mete-a ao bolso, afasta-se com o caixote sem dizer palavra. Saio à rua, vou pela cidade a passos vãos, à procura de entender. É o fim da tarde de um dia de Inverno. Reconheço-o nos pássaros guizalhando pelas árvores, uma melancolia retraída que no Verão não há. Vera mora um pouco longe, mas tenho tempo, apetece-me andar. É a hora viva do tráfego, as luzes acendem-se pelo ar, as vitrinas iluminam-se – e se soubesses como é difícil. Porque um secreto mecanismo tudo subverteu. Não estava lá o que eu disse, não estava mesmo no programa de Teófilo – estava onde? Como bichos terrestres, os olhos acesos, passam os carros, levam a cidade toda na sua ronda – estava onde?”

Vergílio Ferreira in Nítido Nulo

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Do frio - Vergílio Ferreira


Pelo espaço azul do céu já frio. Mas é possível que não. Na realidade, bebo e a cerveja está certa com uma sede que só havendo calor. O que há é outra coisa. O que há é esta constrição de nós, este aperto, esta aflição. O sol desce. Já o tinha dito. Tenho de o dizer mais vezes à medida que for descendo. À medida que desce, o que está no extremo do horizonte fica para cá do extremo. A gente estende-se toda no olhar. É perigoso. A gente desfaz-se em ausência. Esta constrição. Este aperto. A ilusão do frio vem daí...

Vergílio Ferreira in 'Nítido Nulo'

sábado, 5 de setembro de 2009

A revolta pelo ato - Vergílio Ferreira


"E às três da madrugada, estamos todos de relógio em punho, uma mão invisível deu o sinal - e a revolução começou. Pelo ardor humano da justiça, pela cólera pelo insuportável do sonho, pelo gosto de mexer, pelo desejo de estar a horas à passagem da História, pelo prazer de também ficar no retrato comemorativo, por não haver nada que fazer, pela chatice da vida, pela necessidade de tomar banho e não cheirar mal, por se querer aproveitar a esperança enquanto ainda está limpa, sem comentário das moscas, pelo gosto de mudar de fato e de camisa e talvez mesmo de cuecas, por uma cerca macaqueação da divindade criadora, pela alegria de reinventar a manhã quando o dia já vai adiando, por um certo excesso de energia disponível, pela força da fé, pelo remorso, porque sim - a revolução começou. Era uma noite de inverno, geométrica, nua. Limpa."

Vergílio Ferreira, in 'Nítido Nulo'

quarta-feira, 8 de julho de 2009

A intimidade da presença - Vergílio Ferreira


"Vegetação seca no recorte das dunas, vejo-a, lembra-me a brisa de sal. Um barco passa quase à borda da água - será o de há pouco? um petroleiro talvez. Pesado, vagaroso, um friso de espuma ao corte da proa. Alegria marítima, o sol rasgado de horizonte a horizonte, espaço absoluto. E o azul vivo na grande pedra do mar. É o que sobretudo me comove, esta verdade original das coisas. Frescura intacta e nula, força íntima de ser - e o vazio da sua justificação. O mundo é vivo e alegre, luz virgem, e só eu o sei, acidental, aqui, um instante lúcido. O ser não se justifica, apenas é - sê apenas. Que a tua complicação e o jogo encravado e o erro imprevisível que só é previsível em marcha atrás,..."

Vergílio Ferreira in Nítido Nulo

Evidência paradigmática - Vergílio Ferreira


"Porque na realidade, não estou à espera de nada. A morte, decerto. Mas a morte não se espera - acontece. Como numa doença incurável, deve ser assim. Entre a condenação e a execução, nos breves minutos que sejam deve ser parecida. No mais pequeno intervalo cabe a vida toda e dentro da vida é-se eterno, não estou à espera de nada. Roça absoluta de si, o além dela é não, agora não. Pára, vazio de tudo, na dispersão ausente do teu olhar distraído. Na adstringente secura dos cigarros ininterruptos, do salgado dos tremoços e da maresia, na automação circular da sede que renasce da sede que se calou, como o triunfo que se esquece na razão de triunfar e que nunca triunfa, se bebesses? E um instante a paz regressa, intervalada no esquecimento do desassossego, a seguir."

Vergílio Ferreira in Nítino Nulo

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

A destruição de tudo - Vergílio Ferreira


É a palavra de ordem para o homem de hoje. Destruir. Tudo. Os deuses, as artes, diferenças culturais, ou a só cultura, diferenças sexuais, diferenças literárias ou a só literatura que leva hoje tudo, valores de qualquer espécie, filosofias, o simples pensamento, a simples palavra - tudo alegremente ao caixote. Entretanto, ou por isso, proliferação das gentes com a forma que lhes pertence, devastação da sida, que foi o que de melhor a natureza arranjou para equilibrar a demografia, droga dura para se avançar na vida mais depressa, criminalidade para esse avanço, juventude de esgotos nocturnos, velhos em excesso e que não há maneira de se despacharem e atulham os chamados lares de idosos ou simplesmente os depósitos em que são largados até mudarem de cemitério, politiqueiros que têm a verdade do erro que se segue e o mais e o mais. É tempo de cair um pedregulho como o que acabou com os dinossauros há sessenta milhões de anos e de poder dar-se a hipótese de a vida recomeçar. Até que venha outra vez a destruição e Deus definitivamente se farte do brinquedo. Entretanto vê se vês ainda alguma flor ao natural e demora-te um pouco a admirar-lhe a beleza e estupidez.

Vergílio Ferreira, in 'Escrever'

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

"E é do NÃO ao que te limita e degrada que tu hás-de construir o SIM da tua dignidade."
Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1'